Sociedades Acadêmicas – Por Martin W. Mittelstadt

Sociedades acadêmicas pentecostais não surgiram até o último quarto do século XX. No curto período desde aquela época, no entanto, pelo menos uma sociedade acadêmica comprometida com a pesquisa pentecostal foi estabelecida em todos os continentes. A Sociedade para Estudos Pentecostais (SPS), fundada em 1970, é a mais antiga e se materializou da visão de três aspirantes a acadêmicos pentecostais: William Menzies (Assembléias de Deus), Vinson Synan (Igreja Pentecostal da Santidade) e Horace Ward (Igreja de Deus [Cleveland, Tennessee]). Seu primeiro encontro anual coincidiu com a sexta Conferência Mundial Pentecostal em Dallas, Texas, que foi patrocinada pela Pentecostal Fellowship of North America (PFNA). Inicialmente, a reunião atraiu 139 inscritos e foi concluída com 108 membros fundadores. Embora a sociedade funcione “para servir o mundo da igreja, proporcionando uma interpretação oficial do Movimento Pentecostal”, a liderança da SPS fez uma migração corajosa para longe da PFNA e se tornou uma entidade separada em 1975 (Society for Pentecostal Studies 2010).

Os membros estabeleceram o nome de “Sociedade Para Estudos Pentecostais” em vez da “Sociedade de Estudiosos Pentecostais”, a fim de estimular o rigor acadêmico no estudo do pentecostalismo e não limitar o envolvimento apenas aos acadêmicos pentecostais. Originalmente, os membros do SPS eram obrigados a aderir à Declaração de Fé do PFNA, que excluía muitos pentecostais afro-americanos e hispano-americanos, cujas denominações haviam sido negadas a participação no PFNA; Estudiosos unicistas, que não conseguiam se alinhar com a linguagem trinitária; e carismáticos, muitos dos quais não subscreveram a doutrina pentecostal clássica de falar em línguas como evidência inicial do batismo do Espírito Santo. Este requisito foi finalmente removido a fim de promover mais diversidade dentro do SPS, mas outros ainda expressaram preocupação de que um órgão norte-americano possa exercer muita influência interpretativa sobre o movimento pentecostal global maior. A diversidade de presidentes anteriores indica os esforços feitos pelos membros do SPS para serem inclusivos; Ao longo de quarenta anos, a lista presidencial demonstra a diversidade de gênero, etnia (incluindo afro-americanos, hispânicos e canadenses), bem como denominações e tradições (com ligações às tradições Unicistas, Católica Romana, Presbiteriana e Episcopal). A sociedade continua realizando reuniões anuais que geralmente são focadas em um tema de conferência comum, apresentando oradores do plenário junto com apresentadores e respondentes em uma gama cada vez maior de temas incluindo preocupações asiáticas/Americana, preocupações bíblicas, pentecostalismo canadense, ética cristã, ecumenismo, história, missões e estudos interculturais, filosofia, teologia prática/formação cristã, religião e cultura e teologia. O SPS também patrocinou dois extensos diálogos ecumênicos entre católicos romanos e pentecostais e entre pentecostais clássicos e unicistas. Em 1979, a sociedade lançou seu primeiro número da Pneuma: o Jornal da Sociedade de Estudos Pentecostais, agora reconhecido por importantes contribuições acadêmicas, não apenas entre pentecostais e carismáticos, mas também entre estudantes e acadêmicos de todas as tradições. Como a sociedade, a Pneuma – atualmente publicada três vezes ao ano – continua a crescer na diversidade denominacional, étnica e internacional, refletindo, assim, a crescente dinâmica global do Pentecostalismo do século XXI. Ainda em solo norte-americano, a recém-formada Rede Canadense de Pesquisas Pentecostais examina questões relacionadas ao estudo do pentecostalismo canadense. Vários simpósios levaram a monografias com foco nas histórias do pentecostalismo canadense e ao estabelecimento do jornal canadense de cristianismo pentecostal e carismático.

Na Europa, várias organizações se materializaram para tratar de questões específicas relacionadas ao pentecostalismo naquele continente. A Associação Europeia de Teologia Pentecostal (EPTA), fundada em 1979, existe para “a promoção do aprendizado pentecostal, treinamento ministerial e literatura teológica, e a promoção do intercâmbio e cooperação entre instituições membros” (European Pentecostal Theological Association 2010). Tal como os membros do SPS, os membros da EPTA esforçam-se por abordar uma multiplicidade de línguas, culturas e tradições dentro do contexto europeu. Ao contrário do SPS, o EPTA inclui apenas membros pentecostais e serve principalmente as preocupações da educação pentecostal. Em 1981, a sociedade iniciou a publicação trimestral do EPTA Bulletin e, em 1996, a EPTA passou para uma publicação anual renomeada para Journal of European Pentecostal Theological Association (JEPTA). No mesmo ano, uma segunda associação denominada Conferência Pentecostal de Pesquisa Carismática Europeia (EPCRA) iniciou um intercâmbio internacional, interdenominacional e interdisciplinar entre acadêmicos e leigos sobre o estudo dos movimentos pentecostais e carismáticos. Finalmente, a mais recente sociedade europeia – fundada em 2004 como a Rede Europeia de Pesquisa sobre Pentecostalismo Global (GloPent) – agora atua como uma rede para pesquisadores com interesse particular no pentecostalismo africano, asiático e latino-americano. O GloPent consiste de um ambicioso grupo diretor de acadêmicos da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, da Vrije Universiteit em Amsterdã e da Universidade de Heidelberg. A rede encoraja a afiliação de acadêmicos de qualquer universidade europeia, e por meio do Centro Hollenweger para o Estudo Interdisciplinar de Movimentos Pentecostais e Carismáticos em Amsterdã publica PentecoStudies: Revista Online para o Estudo Científico do Pentecostalismo e Movimentos Carismáticos.

Na Ásia e na Austrália, várias sociedades com ambições nacionais, regionais e/ou internacionais incluem a Associação de Teologia Carismática da Ásia (ACTA); Associação Teológica Ásia-Pacífico (APTA), que publica o Jornal Asiático de Estudos Pentecostais; Sociedade Pentecostal Asiática; Estudos pentecostais da Australásia, que publica Estudos Pentecostais Australasianos; Conferência dos Teólogos Pentecostais – Índia; Sociedade Japonesa de Estudos Pentecostais; e a Korean Pentecostal Society, que publica o Journal of Korean Pentecostal Theology. Da África, grupos recentes a emergir incluem o Centro para Estudos Pentecostais e Carismáticos, baseado em Gana, e a Associação Teológica Pentecostal da África Austral (e seu jornal intitulado Pneumatikos). Movendo-se para a América Latina, a Comisión Evangélica Pentecostal Latinoamericana (CEPLA) atua sob o Conselho Mundial de Igrejas e aborda os desafios fundamentais enfrentados pelo movimento pentecostal na América Latina. Desde 1990, os pesquisadores continuam a se concentrar nas raízes históricas da fé pentecostal e a responder à crescente demanda por discipulado, formação ministerial e ecumenismo. Dada a recente onda de pentecostalismo global, a pesquisa imediata requer uma análise acadêmica das identidades, histórias, teologias e praxes nacionais e regionais, destacando assim a necessidade de crescimento nos estudos sobre o Sul Global. Infelizmente, os impedimentos à distância e ao custo às vezes forçam essas organizações a diminuir a frequência de suas reuniões e publicações da conferência.

Uma sociedade notável, Pentecostais e Carismáticos para a Paz e Justiça (PCPJ), não existe primordialmente ao longo das linhas geográficas, mas sim “encorajar, capacitar e sustentar a busca da paz e a busca da justiça como aspecto autêntico e integral da Pentecostal”. Cristianismo Carismático, testemunhando a convicção de que Jesus Cristo é relevante para todas as tensões, crises e fragilidades do mundo” (Pentecostais e Carismáticos para a Paz e a Justiça, 2010). O PCPJ publica a Pax Pneuma: O Jornal de Pentecostais e Carismáticos para a Paz e a Justiça e procura fornecer recursos para que os capítulos locais participem da paz em forma de Jesus, com o poder do Espírito, com justiça.

Enquanto as sociedades acadêmicas pentecostais defendem suas declarações de missão, o futuro da pesquisa e práxis pentecostal parece brilhante. Primeiro, ao cumprir sua missão, os estudantes e acadêmicos pentecostais ampliarão sua identidade pessoal e acadêmica através de um diálogo rigoroso entre os pares. De fato, os eruditos pentecostais se moldam mutuamente e contribuem muito para as identidades históricas e teológicas dos pentecostais agora em seu segundo século de existência. Esses estudiosos, por sua vez, ajudam a moldar a autoconsciência exegética, histórica, sociocultural e teológica não apenas em suas comunidades acadêmicas, mas também eclesiais. Segundo, as sociedades acadêmicas pentecostais não permanecem mais à margem da erudição. Os esforços das sociedades pentecostais lançam muitos jovens acadêmicos em carreiras que não apenas moldam a tradição pentecostal, mas também oferecem contribuições à academia maior e à igreja universal. A título de exemplo, considere desenvolvimentos recentes na Sociedade Teológica Evangélica (ETS) e na Academia Americana de Religião (AAR). Em 1999, o ETS confirmou uma sessão sob a liderança de Paul Elbert e James Shelton intitulada “Temas Carismáticos em Lucas-Atos”. As reuniões continuaram na ETS por cinco anos e estimularam o importante diálogo entre eruditos pentecostais e evangélicos. Voltando ao AAR, embora um pedido formal de uma trilha pentecostal tenha sido rejeitado em 1984, a atual geração de pentecostais sob a direção de James KA Smith e Amos Yong recebeu recentemente a entrada como “Consulta dos Movimentos Pentecostais-Carismáticos”. Inaugurada em 2007, a consulta está atualmente em seu segundo mandato de três anos.

Referências e Sugestões de Leitura

European Pentecostal Theological Association. 2010. http://www.eptaonline.com.

Hunter, Harold D. 2002. “International Pentecostal-Charismatic Scholarly Associations.” In The New International Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements. Revised and expanded edition, ed. Stanley M. Burgess and Eduard M. van der Maas, 795–97. Grand Rapids, MI: Zondervan.

Pentecostal-Charismatic Theological Inquiry International. 2010. http://www.pctii.org.

Pentecostals and Charismatics for Peace and Justice. 2010. “Our Mission.” http://pcpj.org.

Society for Pentecostal Studies. 2010. http://www.sps-usa.org.

Spittler, Russell P. 2002. “Society for Pentecostal Studies.” In The New International Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements. Revised and expanded edition, ed. Stanley M. Burgess and Eduard M. van der Maas, 1079–80. Grand Rapids, MI: Zondervan.

Martin W. Mittelstadt

Ph.D. Marquette University (Milwaukee, Wisconsin), 2000
M.Div. Providence Theological Seminary (Winnipeg, MB, Canada), 1990
B.Th. Horizon College (Saskatoon, SK, Canada) and University of Winnipeg, 1986

Uma Análise de Atos dos Apóstolos – Por Roger J. Stronstad

Os Atos dos Apóstolos, o quinto livro do cânon do Novo Testamento, ocupa um lugar privilegiado dentro da tradição pentecostal. É no livro de Atos que encontramos menção de que os discípulos estão cheios do Espírito Santo e da subsequente operação dos vários dons do Espírito Santo entre os discípulos. Ambos ocorreram no dia de Pentecostes, a partir do qual os pentecostais modernos receberam seu nome. Os Atos dos Apóstolos são a única narrativa de continuação, ou “parte dois” do livro no Novo Testamento. A primeira parte é, claro, o Evangelho de Lucas. Considerada como a narrativa unificada de duas partes, que é, os dois livros são geralmente identificados como Lucas-Atos. A este respeito, Lucas-Atos é mais parecido com a narrativa 1 e 2 Crônicas do Antigo Testamento do que com as Cartas do Novo Testamento separadas, 1 e 2 Coríntios. Os Atos dos Apóstolos estendem a narrativa sobre “tudo o que Jesus fez e ensinou” (Atos 1: 1), por implicação a tudo o que Jesus continua a fazer e ensinar através de seus seguidores batizados pelo Espírito e seus conversos batizados com o Espírito. Lucas-Atos, portanto, é uma narrativa de dois livros sobre a história da salvação unida no gênero literário, na história e na teologia.

Atos relata o progresso do testemunho triunfante, embora muitas vezes perseguido, dos discípulos sobre Jesus, de Jerusalém a Roma. Esta testemunha começa no primeiro dia pós-páscoa de Pentecostes em Jerusalém, quando cerca de três mil foram acrescentados à igreja, e conclui em Roma cerca de trinta anos depois, quando Paulo, ainda acorrentado, pregou e ensinou “sobre o Senhor Jesus Cristo com toda a ousadia e sem impedimentos” (Atos 28:31). Historicamente, Atos também funciona como a narrativa de continuação de cada um dos outros Evangelhos – Mateus, Marcos e João. Isso porque a história de Lucas sobre Jesus como Salvador é também sua história, e sua história sobre Jesus assume o cumprimento da “grande comissão” com a qual termina cada evangelho (Mt 28:16-20; Mc 16:14-18; Jo 20:19-23). Portanto, embora Atos esteja separado de Lucas no cânon do Novo Testamento pelo Evangelho de João, ele se coloca corretamente como a narrativa de continuação não apenas para Lucas, mas para todos os quatro Evangelhos e também como a ponte e introdução às muitas epístolas do Novo Testamento que seguem, começando com a epístola de Paulo aos romanos.

Atos é a única história da igreja apostólica encontrada no Novo Testamento. É o único relato de testemunha ocular sobre a propagação do evangelho. De acordo com Atos 16–28, há várias passagens chamadas “nós”. Estes identificam o autor como participante da ação narrativa. Se os Atos não tivessem sido escritos, seria impossível para as gerações posteriores de leitores do Novo Testamento reconstruírem a história da igreja apostólica das cartas de Paulo e dos outros escritores dos livros do Novo Testamento.

O escritor de Lucas-Atos nas passagens do “nós” identifica-se como participante de alguma ação em Atos. No entanto, ele em nenhum lugar se denomina. A esse respeito, Lucas Atos é como os livros históricos do Antigo Testamento, que também são escritos anonimamente. Porque o autor não se identifica, Lucas-Atos difere das Cartas do Novo Testamento. Nestas cartas o autor se identifica na saudação (por exemplo, Paulo, um apóstolo) e sua identidade dá à carta uma autoridade pessoal que está faltando nos livros históricos do Antigo e Novo Testamento.

Embora Lucas-Atos seja um documento anônimo em dois volumes, o testemunho da igreja primitiva é que Lucas é o autor. Essa identificação de Lucas como o autor do Evangelho que leva seu nome e dos Atos dos Apóstolos é apoiada por evidências no Novo Testamento. Por exemplo, o autor das passagens “nós” é um companheiro ocasional de Paulo. Na segunda turnê evangelística de Paulo, as passagens do “nós” indicam que o autor se uniu a Paulo em Trôade (Atos 16:11ss). Ele então acompanhou Paulo à Macedônia, e ele ficou para trás em Filipos quando Paulo se mudou para Tessalônica. O escritor reencontra Paulo no final da terceira turnê evangelística de Paulo e viaja com ele de Filipos para Jerusalém. Finalmente, o escritor de Lucas-Atos acompanha Paulo de Cesaréia a Roma.

Quando Paulo está em Roma, um de seus companheiros é Lucas. Na carta de Paulo aos colossenses, ele identifica Lucas como “o médico amado” (Cl 4:1). Mais ou menos na mesma época em que Paulo escreve à igreja em Colossos, ele também escreve a um certo Filemom. Nesta carta ele identifica Lucas como um colega de trabalho (Fl 24). Vários anos depois, Paulo escreve a Timóteo e descreve Lucas como um companheiro fiel ou leal (2 Tm 4:11).

Esta evidência combinada de Atos e as cartas relevantes de Paulo testemunham Lucas sendo o autor de Atos e, portanto, também do Evangelho que leva seu nome. Os cristãos chegaram a essa conclusão no início da história da igreja. Por exemplo, o historiador do século IV da igreja primitiva Eusébio de Cesaréia, em sua História Eclesiástica, identifica Lucas como o autor de dois livros, o Evangelho e os Atos dos Apóstolos. Assim, a evidência interna (Atos e as cartas de Paulo) e a evidência externa (História Eclesiástica de Eusébio) consistentemente testemunham a autoria de Lucas-Atos por Lucas. Pouco mais pode ser dito de Lucas, exceto que ele tem um conhecimento profundo da tradução da língua grega do Antigo Testamento, que é chamado de Septuaginta (abreviado LXX). Esse conhecimento do Antigo Testamento em grego torna possível que Lucas fosse um judeu helênico ou grego.

Quando Lucas realmente escreveu sua história sobre a origem e propagação do cristianismo não pode ser estabelecido com certeza. Vários fatores implicam, no entanto, que ele escreveu no início dos anos sessenta do primeiro século. Nós sabemos a data mais próxima possível. Lucas viajou com Paulo para Roma, e ele conclui sua história com uma referência à prisão domiciliar de dois anos de Paulo naquela cidade. Isso significa que Lucas-Atos não poderia ter sido escrito antes de 62/63 d.C.

As cartas pastorais de Paulo (1 e 2 Tm e Tt) indicam que Paulo foi libertado algum tempo após sua prisão em Roma. Neste momento, Lucas ainda é um companheiro de Paulo (2 Tm 4:11), mas ele não relata nada sobre as atividades de Paulo depois de sua prisão romana. Além disso, em 64 d.C, um incêndio ardeu em grandes partes da cidade de Roma. O imperador, Nero, culpou os cristãos da cidade pelo incêndio e martirizou muitos deles. Lucas silencia sobre esta perseguição dos cristãos por Nero. Lucas também silencia sobre a revolta dos judeus na Judéia contra os romanos em 68-70 d.C. Os romanos logo esmagaram a revolta, destruindo o templo em Jerusalém em 70 d.C. O silêncio de Lucas sobre esses eventos precisa ser medido pelo interesse dele na história contemporânea. Por exemplo, em Atos 18:1 ele relatou que o imperador Cláudio havia expulsado os judeus, incluindo Áquila e Priscila, de Roma (49 d.C). Desde que Lucas se calou sobre os últimos anos do ministério de Paulo e silenciou sobre os eventos dentro do império como a perseguição de Nero e, mais tarde, a destruição do Templo Judaico, é razoável concluir que Lucas-Atos foi escrito depois da prisão de Paulo em Roma, mas antes da perseguição de Nero aos cristãos em Roma. Portanto, Lucas provavelmente escreveu Lucas-Atos em algum momento dos anos 62-64 d.C.

A Bíblia é escrita em uma variedade de formas literárias. No Novo Testamento, a forma mais comum é a Carta. Paulo, Tiago, Pedro, João e Judas escreveram cartas para igrejas individuais, grupos de igrejas ou indivíduos. O livro de Hebreus identifica-se como uma “palavra de exortação” ou sermão escrito (Hb 13:22). O último livro do Novo Testamento identifica-se como uma revelação ou um apocalipse (Ap 1:1). Em contraste, os cinco primeiros livros do Novo Testamento são escritos como narrativa histórica. A igreja classifica os livros de João, Mateus, Marcos e Lucas como “boas novas”, ou Evangelhos, e o segundo livro de Lucas como os Atos dos Apóstolos. Lucas, no entanto, classifica seus dois livros – o Evangelho e os Atos – como narrativa histórica. No início de seu primeiro livro, Lucas identifica o que ele escreveu para Teófilo pela palavra grega diegesis, que significa “conta” ou “narrativa” (Lc 1:1), e que, portanto, identifica tanto o Evangelho de Lucas como Atos dos Apóstolos como narrativa histórica. No início de Atos, ele identificou retrospectivamente seu primeiro livro pela palavra grega logos, que significa “conta, crônica ou rolagem”.

Eusébio identifica os dois livros de Lucas em dois termos. A primeira é a palavra grega historesen, que significa “relato escrito”, “narrativa” ou “história”. Mais tarde, Eusébio identifica Lucas e Atos pela palavra grega praxeis. Essa palavra geralmente é traduzida para o inglês como “atos”. Praxeis, ou Atos, é o título tradicional do segundo livro de Lucas. Claramente, a evidência destes quatro termos é unânime. Embora o Evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos tenham diferentes títulos na Bíblia inglesa, separadamente e juntos, Lucas-Atos é narrativa histórica, história ou atos. Isso faria de Lucas, seu autor, o primeiro historiador da igreja.

Como os livros de 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis e 1 e 2 Crônicas encontrados no Antigo Testamento, Lucas Atos também contém uma narrativa teológica unificada. As perspectivas teológicas de Lucas sobre Deus, Jesus e o Espírito Santo não mudam de um livro para outro. Desde que os estudos Lucano começaram na década de 1970, tornou-se cada vez mais comum considerar Lucas um teólogo, assim como um historiador. Como parte dessa mudança em direção ao reconhecimento dos interesses teológicos de Lucas, é mais apropriado discutir Lucas como um teólogo independente, quando, por exemplo, comparando a teologia do Evangelho de Lucas com as teologias de Mateus e Marcos, ou comparando a teologia de Lucas de Lucas-Atos com a teologia das epístolas de Paulo. Em outras palavras, Lucas-Atos contém conteúdo teológico que é exclusivo para esses livros.

É importante notar que Lucas-Atos é definido nas duas culturas em que o cristianismo emergiu e se espalhou, tanto a cultura judaica quanto a greco-romana. No Evangelho e em Atos 1–12, os leitores de Lucas encontram-se no mundo do judaísmo. Este é o mundo dos fariseus e das sinagogas, da justiça por meio da lei, das expectativas messiânicas, das festas judaicas e da hierarquia religiosa e política em Jerusalém e no templo. Mas a atividade missionária de Paulo (Atos 13–28) levou o cristianismo ao contato direto com as autoridades romanas e o direito romano. Por exemplo, quando Barnabé e Paulo viajam pelo Chipre, eles são levados ao procônsul Sérgio Paulo (Atos 13:7). Mais tarde, em Filipos, Paulo e Silas são acusados ​​por seus cidadãos de “advogar costumes que não são lícitos para nós como romanos” (Atos 16:21). Em Tessalônica, Paulo e Silas são acusados ​​de agir “contrários aos decretos do imperador” (Atos 17:7). Quando Paulo viaja para Corinto, ele se encontra com Áquila e Priscila, que junto com outros judeus já haviam sido expulsos da própria Roma pelo imperador Cláudio (Atos 18:2). Os últimos capítulos de Atos contêm muitos outros contatos entre a história do cristianismo primitivo e o mundo greco-romano.

Lucas-Atos também é história seletiva. Lucas não faz nenhuma tentativa de escrever uma história completa de Jesus, seus apóstolos ou a propagação do evangelho por todo o mundo romano. Por exemplo, Lucas relata que cerca de 120 discípulos em Jerusalém aguardam a chegada do dia de Pentecostes (Atos 1:15). Esses discípulos incluem os apóstolos; Maria, a mãe de Jesus; e os irmãos de Jesus. Destes 120 discípulos, Lucas diz aos seus leitores nada mais sobre Maria (onde ela viveu, quando ela morreu, ou seu papel na igreja primitiva, por exemplo). Ele nada nos diz sobre os irmãos de Jesus, exceto Tiago (brevemente), que não é mencionado novamente até o Concílio de Jerusalém (Atos 15). Dos doze apóstolos, Lucas não diz nada, exceto sobre o círculo interno, a saber, Pedro, Tiago e João. Lucas menciona Tiago e João apenas brevemente. Em contraste, Lucas relata extensivamente sobre Pedro em Jerusalém, Samaria e Judéia.

Lucas não relata a seus leitores nada sobre a igreja na Galiléia, onde o evangelho apareceu pela primeira vez, e ele não diz nada sobre a propagação do evangelho ao Egito, embora ele relate sobre Apolo, um cristão de Alexandria no Egito (Atos 18: 24– 28). Com o tempo, Pedro escreverá aos cristãos na província de Ponto, na Capadócia e na Bitínia (1 Pd 1:1). Lucas, no entanto, silencia sobre a evangelização dessas províncias. Além disso, Paulo escreve cartas para as igrejas em Roma, Colossos e Laodicéia (Rm 1:1; Cl 1:1, 4:15-16). De Lucas não sabemos nada sobre como, quando ou por quem as igrejas nessas cidades foram fundadas. Ele é muito seletivo quando escolhe informações que se conformam e avançam em seus propósitos ao narrar a propagação do evangelho.

É interessante notar que Lucas escreve como professor. Seus interesses históricos e teológicos são mais do que mero interesse privado ou indulgência. Ele escreve para instruir seu patrono Teófilo, e todos os outros que leem sua história, sobre as coisas que Deus realizou através dos apóstolos. Lucas usa a terminologia do Antigo Testamento adaptada da Septuaginta, a tradução grega das Escrituras judaicas redigida no terceiro e segundo séculos a.C, usando frases como “cheios do Espírito Santo”. Essa terminologia do Antigo Testamento comunica conotações teológicas que todo leitor da narrativa de Lucas que também está familiarizado com o Antigo Testamento entenderia.

Lucas ensina mais diretamente quando ele relata o ensinamento direto de Jesus e seus discípulos. Por exemplo, Lucas ensina Teófilo e seus últimos leitores sobre o Espírito Santo relatando o ensino de Jesus sobre o Espírito Santo. Jesus ensinou que o Pai daria o Espírito Santo àqueles que o pedissem, isto é, àqueles que orassem (Lc 11:13). Assim, levando até o dia de Pentecostes, os discípulos estão em oração (Atos 1:14,15). Quando Pedro e João mais tarde vão a Samaria, eles oram para que os crentes possam receber o Espírito Santo (Atos 8:14–15). Jesus identificou esse dom prometido do Espírito Santo quando os discípulos foram “batizados no Espírito Santo” (Atos 1:4–5; compare com 11:15–17). Finalmente, Jesus declara que o propósito do Espírito Santo vir sobre os discípulos é para que eles possam receber poder para um testemunho mundial (Atos 1: 8). E assim, relatando o ensino de Jesus, o próprio Lucas ensina: (1) os discípulos podem orar para receber o Espírito Santo; (2) esta recepção do Espírito é o batismo do Espírito; e (3) o propósito deste batismo no Espírito é vocacional, isto é, é para testemunho ou serviço.

Lucas também ensina sobre o Espírito Santo relatando o ensino e a pregação dos discípulos de Jesus. Por exemplo, aplicando o texto de Joel ao derramamento do Espírito Santo no dia de Pentecostes, Pedro faz três pontos principais: (1) que este derramamento do Espírito é o prometido dom dos últimos dias do Espírito (Atos 2.17a); (2) que é potencialmente universal – atravessando toda a idade, gênero e limites socioeconômicos – e está disponível de geração para geração (2:17b-18, 39); e (3) que é o derramamento do Espírito de profecia (2:17b-18). Após o derramamento do Espírito sobre a casa de Cornélio (Atos 10:44–48), Pedro explica à igreja em Jerusalém que a recepção de Cornélio do Espírito Santo é segundo o modelo de Pentecostes (Atos 11:15) e que é um batismo no Espírito (Atos 11:16). Ao relatar o ensino ou a pregação de Pedro, o próprio Lucas ensina: (1) o batismo no Espírito resulta no dom de falar em línguas e (2) esse é um padrão para os discípulos que são batizados no Espírito Santo.

Lucas escreve uma narrativa cuidadosamente elaborada sobre a origem e propagação do evangelho. Ele dá a Lucas e a Atos uma estrutura temática comum. Mas o livro de Atos também pode ser delineado independentemente do Evangelho, o que destacaria outras nuances no significado da narrativa de Atos. Por exemplo, o intérprete pode delinear o segundo livro de acordo com o padrão geográfico de Atos 1:8; assim, Jerusalém (capítulos 1–7), Samaria e Judéia (capítulos 8–12) e até os confins da terra (capítulos 13–28). Ou o intérprete pode dividir Atos de acordo com os dois heróis primários de Lucas; assim, Pedro (Atos 1–12) e Paulo (Atos 13–28). O intérprete pode enfatizar a obra do Espírito Santo; assim, a origem da comunidade carismática (Atos 1: 1-2: 41), os atos da comunidade carismática (Atos 2: 42-6: 7), e a seção maior do livro, a saber, os atos dos seis discípulos carismáticos, Estêvão e Filipe (diáconos carismáticos), Barnabé e Ágabo (profetas carismáticos) e Pedro e Paulo (apóstolos carismáticos) (Atos 6:8–28:31). Cada uma dessas abordagens (e outras) para delinear os Atos-Lucas ou os Atos, por si só, tem sua própria lógica inerente. Assim, cada um faz sua própria contribuição para uma melhor compreensão da mensagem de Atos.

 

Referências e Sugestões de Leitura

Liefeld, Walter L. 1995. Interpreting the Book of Acts. Guides to New Testament Exegesis. Grand Rapids, MI: Baker Books.

Marshall, I. Howard. 1992. The Acts of the Apostles. New Testament Guides. Sheffield: Sheffield Academic Press.

Martin, Ralph P., and Peter H. Davids, eds. 1997. Dictionary of the Later New Testament and Its Developments. Downers Grove, IL: InterVarsity Press.

Parsons, Mikeal C. 2007. Luke: Storyteller, Interpreter, Evangelist. Peabody, MA: Hendrickson.

Powell, Mark Allan. 1991. What Are They Saying about Acts? Mahwah, NJ: Paulist Press.

 

 

ROGER J. STRONSTAD Dr. Roger J. Stronstad é um estudioso e teólogo canadense da Bíblia Pentecostal. Ele é professor associado de Bíblia e Teologia no Summit Pacific College, em Abbotsford, British Columbia.

Dons Espirituais na História da Igreja – Sam Storms – Parte 4

Embora haja menos evidências quando entramos no período da Idade Média (as razões pelas quais eu já mencionei), em nenhum momento os dons desapareceram completamente. Devido às limitações de espaço, só poderei listar os nomes daqueles em cujos ministérios existem numerosos exemplos documentados de dons de profecia, cura, discernimento de espíritos, milagres, juntamente com relatos vívidos de sonhos e visões.

Para uma documentação extensa, consulte Stanley M. Burgess, The Holy Spirit: Medieval Roman Catholic and Reformation Traditions (Sixth-Sixteenth Centuries) (Peabody: Hendrickson Publishers, 1997, 252 pp.) Bem como seu livro recente, Christian Peoples of the Spirit: A Documentary History of Pentecostal Spirituality from the Early Church to the Present (New York: New York University Press, 2011, 309 pp.). Entre os citados e descritos por Burgess, bem como por outros autores (ver Paul Thigpen, “Did the Power of the Spirit ever leave the Church?” in Charisma, September, 1992, 20-29; and Richard M. Riss, “Tongues and Other Miraculous Gifts in the Second through Nineteenth Centuries,” Basileia, 1985; and Ronald Kydd, Charismatic Gifts in the Early Church [Peabody: Hendrickson, 1984]) incluem:

João do Egito (m. 394) e Paquômio (287-346 d.C.); Leão, o Grande (400-461 d.C.; serviu como bispo de Roma de 440 a 461); Genevive de Paris (422-500 d.C.); Gregório Magno (540-604); Gregório de Tours (538-594); o Venerável Bede (673-735; sua História Eclesiástica do Povo Inglês, escrita em 731, contém numerosos relatos de dons em operação); Aidan, bispo de Lindisfarne (m. 651) e seu sucessor Cuthbert (m. 687; ambos serviram como missionários na Grã-Bretanha); Bernardo de Claraval (1090-1153); O tratado de Bernard sobre a vida e a morte de Saint Malachy, o irlandês (1094-1148); Ricardo de São Victor (m. 1173); Antônio de Pádua (1195-1231); Bonaventure (1217-1274); Francisco de Assis (1182-1226; documentado na Vida de São Francisco de Bonaventure); Tomas de Aquino (1225-1274); juntamente com praticamente todos os místicos medievais, entre os quais várias mulheres: Hildegard de Bingen (1098-1179), Gertrude de Helfta (1256-1301), Bergitta da Suécia (1302-1373), Santa Clara de Montefalco (d. 1308), Catarina de Siena (1347-1380), Juliana de Norwich (1342-1416), Margery Kempe (1373-1433); Pregador dominicano Vincent Ferrer (1350-1419); e Teresa de Ávila (1515-1582).

Se alguém objetar que estes são exclusivamente católicos romanos, não devemos esquecer que durante esse período da história quase não havia mais ninguém fora do catolicismo. Além de algumas seitas dissidentes, havia pouca ou nenhuma expressão do cristianismo fora da Igreja de Roma (a separação formal que ficou conhecido como Ortodoxia Oriental não ocorreu até 1054 d.C.).

Também não se deve esquecer Inácio de Loyola (1491-1556), fundador dos jesuítas e autor das disciplinas espirituais. Dizem que os dons espirituais, especialmente as línguas, eram comuns entre os morávios, especialmente sob a liderança do conde Von Zinzendorf (1700-1760), bem como entre os huguenotes franceses no final do século XVII e os Jansenistas da primeira metade do século dezoito. John Wesley (1703-1791) defendeu a continuação das línguas além do período dos apóstolos. Pode-se também citar George Fox (1624-1691), que fundou a igreja Quaker.

Aqueles que insistem em que os dons espirituais de revelação, como profecia, discernimento de espíritos e palavra de conhecimento, deixaram de existir depois do primeiro século, também têm dificuldade em explicar a operação desses dons na vida de muitos que estiveram envolvidos na Reforma Escocesa , bem como vários que ministraram depois disso.

Jack Deere, em seu livro Surprised by the Voice of God (Zondervan, 1996, pp. 64-93), forneceu extensa documentação sobre o dom de profecia em ação através de homens como George Wishart (1513-1546; mentor de John Knox), o próprio John Knox (1514-1572), John Welsh (1570-1622), Robert Bruce (1554-1631) e Alexander Peden (1626-1686). Recomendo fortemente que você obtenha o livro de Deere e leia o relato de seus ministérios sobrenaturais, não apenas em profecia, mas também em dons de cura. Deere também chama nossa atenção para um dos historiadores do século XVII, Robert Fleming (1630-1694), bem como para um dos principais arquitetos da Confissão de Fé de Westminster, Samuel Rutherford (1600-1661), que reconheceu a operação dos dons em seus dias.

Como observado anteriormente, não acho improvável que as numerosas igrejas que defendem o cessacionismo experimentem esses dons, mas os rejeitem como algo que não seria a milagrosa manifestação do Espírito Santo.

Uma ilustração disso vem do ministério de Charles Spurgeon (1834-1892), que conta um incidente no meio de seu sermão em que ele parou e apontou para um homem a quem ele acusou de obter lucro injusto no domingo, todos os dias! Mais tarde, o culpado descreveu o evento a um amigo:

O Sr. Spurgeon olhou para mim como se me conhecesse e, em seu sermão, apontou para mim e disse à congregação que eu era sapateiro e que mantinha minha loja aberta aos domingos; e eu fiz, senhor. Eu não deveria ter me importado com isso; mas ele também disse que eu gastei nove centavos no domingo anterior e que havia um lucro de quatro centavos. Eu gastei nove centavos naquele dia, e quatro centavos foi apenas o lucro; mas como ele poderia saber disso, eu não poderia dizer. Então me ocorreu que foi Deus quem falou com minha alma através dele, então fechei minha loja no domingo seguinte. No começo, tive medo de ouvi-lo novamente, para que ele não falasse mais sobre mim; mas depois fui, e o Senhor se encontrou comigo e salvou minha alma ‘”(The Autobiography of Charles H. Spurgeon [Curts & Jennings, 1899], II: 226-27).

Spurgeon acrescenta este comentário:

“Eu poderia contar até uma dúzia de casos semelhantes nos quais apontei para alguém no salão sem ter o menor conhecimento da pessoa, ou qualquer ideia de que o que eu disse estava certo, exceto que eu acreditava que fui movido pelo Espírito para dizer; e tão impressionante tem sido a minha descrição, que as pessoas foram embora e disseram a seus amigos: ‘Venha ver um homem que me contou todas as coisas que eu já fiz; sem dúvida, ele deve ter sido enviado por Deus à minha alma, caso contrário ele não poderia ter me descrito de maneira tão exata. ” E não apenas isso, mas eu conheci muitos casos em que os pensamentos dos homens foram revelados do púlpito. Às vezes, tenho visto pessoas cutucando seus vizinhos com o cotovelo, porque foram atingidos com inteligência e os ouviram dizer quando saíam: ‘O pregador nos disse exatamente o que dissemos um ao outro quando entramos na porta ‘” (ibid.).

Em outra ocasião, Spurgeon interrompeu seu sermão e apontou para um jovem, declarando: “Jovem, estas luvas que você está vestindo não foram pagas: você as roubou do seu patrão” (Autobiography: The Full Harvest, 2: 60) Após o culto, o homem levou as luvas a Spurgeon e pediu que ele não dissesse à mãe, que ficaria de coração partido ao descobrir que o filho dela era um ladrão!

Minha opinião é que este não é um exemplo incomum do que o apóstolo Paulo descreveu em 1 Coríntios. 14: 24-25. Spurgeon exerceu o dom de profecia (ou alguns podem dizer a palavra de conhecimento, 1 Cor. 12: 8). Ele não o rotulou como tal, mas isso não altera a realidade do que o Espírito Santo realizou através dele. Se alguém examinasse a teologia e o ministério de Spurgeon, bem como relatos registrados de seus contemporâneos e biógrafos subsequentes, a maioria concluiria que haveria ausência de referência explícita a Carismas milagrosos, como profecia e a palavra de conhecimento. Mas o testemunho de Spurgeon diz exatamente o contrário!

Por fim, é claro, seria preciso apontar os últimos 100 anos ou mais da história da igreja contemporânea e o surgimento dos movimentos Pentecostal / Carismático / Terceira Onda, juntamente com os mais de 600.000.000 de adeptos em todo o mundo, muitos (a maioria?) testemunham pessoalmente ter experimentado ou testemunhado em outros o Carisma milagroso.

Só espero e oro para que muitos agora vejam que é injustificado e insensato argumentar a favor do cessacionismo com base no testemunho do povo de Deus nos últimos 2.000 anos de história da igreja.

 

 

Sam Storms é pastor reformado e carismático, membro do conselho The Gospel Coalition e um dos diretores do ministério Desiring God

 

 

Texto Original: https://www.samstorms.org/enjoying-god-blog/post/spiritual-gifts-in-church-history–4-
Tradução Livre: Omar Junior

Dons Espirituais na História da Igreja – Sam Storms – Parte 3

Só para lembrar, estamos olhando atentamente para a alegação de alguns cessacionistas que os chamados dons espirituais milagrosos deixaram de operar na igreja após o fim da era apostólica. No artigo anterior, vimos a extensa evidência contrária.

Voltamos agora a outras figuras importantes da igreja primitiva.

O trabalho de Teodoto (final do século II) é preservado para nós por Clemente de Alexandria Excerpta ex Theodoto. Em 24:1 lemos: “Os valentinianos dizem que o excelente Espírito que cada um dos profetas tinha para seu ministério, foi derramado sobre a igreja. Portanto, os sinais do Espírito, como curas e profecias, estão sendo realizados pela igreja.”

Clemente de Alexandria (d. 215 d.C.; The Instructor, iv.21, ANF, 2:434) falou explicitamente da operação dos dons espirituais listados por Paulo em 1 Coríntios 12:7-10 em seus dias.

Orígenes ( 254 d.C.) reconhece que o funcionamento dos dons em sua época não era tão intenso quanto era no NT, mas eles ainda estavam poderosamente presentes: “E ainda há vestígios entre os cristãos daquele Espírito Santo que apareceu na forma de uma pomba. Eles expulsam os maus espíritos, realizam muitas curas, e prevêem certos eventos, de acordo com a vontade do Logos” (Against Celsus, i.46, ANF, 4:415).

O pagão Celso procurou desacreditar os dons do Espírito exercidos nas igrejas no tempo de Orígenes, mas este último apontou para a “demonstração” da validade do Evangelho, “mais divino do que qualquer estabelecido pela dialética grega”, ou seja, aquilo que é chamada pelo apóstolo de as “manifestações do Espírito e de poder”.

Não só foram realizados sinais e maravilhas nos dias de Jesus, mas “traços deles ainda são preservados entre aqueles que regem suas vidas pelos preceitos do Evangelho” (Against Celsus, i.2, ANF 4:397-98).

Hipólito (d. 236 d.C.) estabelece diretrizes para o exercício dos dons de cura, insistindo que “se alguém diz: ‘Eu recebi o dom da cura’, as mãos não serão colocadas sobre ele: a ação se manifestará se ele falar a verdade” (Apostolic Tradition, xv, Easton, 41).

Novaciano escreve  em Treatise Concerning the Trinity  (@245 d.C.):

“Na verdade, este é aquele que nomeia profetas na igreja, instrui os mestres, conduz as línguas, traz a existência poderes e condições de saúde, continua obras extraordinárias, fornece discernimento de espíritos, incorpora administrações na igreja, estabelece planos, reúne e organiza todos os outros dons que existem do carisma e por causa disso torna a Igreja de Deus em todos os lugares perfeita e completa em tudo ” (29, 10).

Eu mencionei anteriormente Cipriano (bispo de Cartago , 248-258 d.C.) que falava e escrevia muitas vezes sobre dom ou profecia e o recebimento de visões do Espírito (The Epistles of Cyprian, vii.3-6, ANF, 5:286-87; vii.7, ANF, 5:287; lxviii.9-10, ANF, 5:375; iv.4, ANF, 5:290).

Gregório Taumaturgo (213-270 d.C.) é relatado por muitos por ter ministrado no poder de numerosos dons miraculosos e por ter realizado sinais e maravilhas.

Eusébio de Cesareia (260-339 d.C.), teólogo e historiador da igreja na corte de Constantino, opôs-se ao abuso dos montanistas sobre o dom da profecia, mas não de sua realidade. Ele afirmou repetidamente a legitimidade dos dons espirituais, mas resistiu aos montanistas que operavam fora da igreja institucional e, assim, contribuíram, disse Eusébio, para sua desunião.

Cirilo de Jerusalém (d. 386) escreveu muitas vezes sobre os dons em sua época: “Pois Ele [o Espírito Santo] usa a língua de um homem para a sabedoria; a alma de outro Ele ilumina para Profecia, para outro Ele dá poder para expulsar demônios, para outro ele dá para interpretar as Escrituras divinas (Catechetical Lectures, xvi.12, NPF 2nd Series, 7:118).

Embora Atanásio em nenhum lugar explicitamente abordou a questão dos dons carismáticos, muitos acreditam que ele é o autor anônimo de Vita S. Antoni ou “A Vida de Santo Antônio.” Antônio era um monge que abraçou um estilo de vida ascético em 285 d.C. e permaneceu no deserto por cerca de 20 anos. O autor (Atanásio?) pessoalmente descreve inúmeras curas sobrenaturais, visões, palavras proféticas e outros sinais e maravilhas. Mesmo que se rejeite Atanásio como seu autor, o documento retrata uma abordagem aos dons carismáticos que muitos, evidentemente, abraçaram na igreja do final do século III e início do século IV.

Os pais da Capadócios (meados do final do século IV) também devem ser considerados.

Basílio de Cesareia (nascido 330 d.C.) falou muitas vezes de profecia e curas em seus dias. Ele apela para a descrição de Paulo em 1 Coríntios 12 de “palavra de sabedoria” e “dons de cura” como representante dos dons que são necessários para o bem comum da igreja (The Longer Rules, vii)

“Não é claro e incontestável que a ordenação da Igreja seja efetuada através do Espírito? Porque Ele deu, diz-se, ‘a igreja, primeiro apóstolos, segundo profetas, em terceiro lugar mestres, depois milagres, em seguida, dons de cura, ajuda, governo, diversidades de línguas’, pois esta ordem é dada de acordo com a divisão dos dons que são do Espírito” (On the Holy Spirit, xvi.39, NPF 2nd Series 8:25).

Líderes espirituais na igreja, como bispos ou presbíteros, diz Basílio, possuem o dom do discernimento de espíritos, cura e previsão de futuro (uma expressão de profecia) (The Longer Rule, xxiv, xxxv, xlii, lv).

Gregório de Nissa (nascido em 336; Irmão mais novo de Basílio) fala sobre as palavras de Paulo em 1 Coríntios 13:

“Mesmo que alguém receba os outros dons que o Espírito fornece (quero dizer as línguas dos anjos, profecia, conhecimento e a graça da cura), mas nunca foi totalmente limpo das paixões internas  através da caridade do Espírito”,  corre o risco de falhar (The Life of St. Macrina, FC 58:175).

O último Capadócio, Gregório de Nazianzo  (nascido em 330.), fornece extensas descrições da cura física que seu pai e mãe experimentaram, bem como várias visões que os acompanharam (On the Death of His Father, xxviii-xxix, NPF 2nd Series 7:263-64; xxxi, NPF 2nd Series 7:264).

Hilário de Poitiers (356 d.C.) fala do “dom das curas” e “da operação de milagres” que “o que fazemos pode ser entendido como o poder de Deus”, bem como “profecia” e o “discernir dos espíritos”. Ele também se refere à importância de “falar em línguas” como um “sinal do dom do Espírito Santo”, juntamente com “a interpretação das línguas”, de modo que “a fé daqueles que ouvem não pode ser ameaçada através da ignorância, uma vez que o intérprete de uma língua explica a língua para aqueles que as desconhece” (On the Trinity, viii.30, NPF 2nd Series 9:146).

No final do século IV, os dons do Espírito foram cada vez mais achado entre os ascetas e os envolvidos nos movimentos monásticos. Os vários compromissos e adaptações à cultura mais ampla que se infiltrou na igreja após a legalização formal do cristianismo sob Constantino levaram muitos dos líderes mais espirituais para o deserto.

Algo deve ser dito sobre Agostinho (354-430 d.C.), que no início de seu ministério defendeu a cessação, especialmente no que diz respeito ao dom das línguas. No entanto, em seus escritos posteriores, ele retirou sua negação da realidade dos milagres e cuidadosamente documentou nada menos que 70 casos de cura divina em sua própria diocese durante um período de dois anos (ver City of God, Book XXII, chps. 8-10)). Depois de descrever inúmeros milagres de cura e até ressurreições dos mortos, Agostinho escreve:

“O que devo fazer? Estou tão pressionado pela promessa de terminar este trabalho, que não posso registrar todos os milagres que conheço; e, sem dúvida, vários dos nossos adeptos, quando lerem o que narramos, lamentarão ter omitido tantos que, assim como eu, certamente conhecem. Mesmo agora eu imploro, essas pessoas para me desculpar, e considerar quanto tempo me levaria para relacionar todos esses milagres, que a necessidade de terminar o trabalho que empreendi me obriga a omitir (City of God, Book XXII, chapter 8, p. 489).

Mais uma vez, escrevendo suas Retratações no final da vida e ministério (@ 426-27 d.C..), ele admite que as línguas e os milagres mais espetaculares, como pessoas sendo curadas “Pela mera sombra dos pregadores de Cristo enquanto eles passam” cessaram.

Ele então diz: “Mas o que eu disse não deve ser entendido como se nenhum milagre devesse ser realizado hoje em dia em nome de Cristo. Pois eu mesmo, quando estava escrevendo este livro, conhecia um homem cego que tinha recebido visão na mesma cidade perto dos corpos dos mártires de Milão. Também conhecia outros milagres; tantas deles ocorrem mesmo nesses tempos que seriamos incapazes de estar cientes de todos eles ou de numerar aqueles de que estamos cientes.”

 

Sam Storms é pastor reformado e carismático, membro do conselho The Gospel Coalition e um dos diretores do ministério Desiring God

 

 

Texto Original: https://www.samstorms.org/enjoying-god-blog/post/spiritual-gifts-in-church-history–3-

Tradução Livre: Omar Junior

 

Dons Espirituais na História da Igreja – Sam Storms – Parte 2

Estamos agora prontos para um breve levantamento da história da igreja (dos Pais Apostólicos a Agostinho). Os exemplos representativos citados demonstrarão que os dons milagrosos do Espírito estavam, e ainda estão em operação. De fato, antes de João Crisóstomo no leste (347-407 d.) e Agostinho, no oeste (354-430 d.) nenhum pai da igreja jamais sugeriu que qualquer um ou todos os carismas haviam cessado no primeiro século. E mesmo Agostinho mais tarde retirou seu cessacionismo anterior (veja abaixo). Então, vamos dar uma breve analisada. [Para pesquisa aprofundada, veja Stanley M.  Burgess, The Spirit & the Church: Antiquity (Peabody: Hendrickson Publishers, 1984).]

A Epístola de Barnabé (escrita em algum momento entre 70 e 132 d.C.), diz o seguinte do Espírito Santo: “Ele profetiza pessoalmente em nós e habita pessoalmente em nós” (xvi, 9, Ancient Christian Writers, 6:61)

O autor de O Pastor de Hermas afirma ter recebido inúmeros insights reveladores através de visões e sonhos. Este documento foi datado entre um pouco antes de 90 d.C.  até 140-155 d.C.

Justino Mártir (aproximadamente 100-165 d.C.), talvez o mais importante apologista do século II, é extremamente claro sobre o funcionamento dos dons em sua época:

“Portanto, assim como Deus não infligiu Sua ira por causa desses sete mil homens, também agora Ele ainda não infligiu julgamento, nem o inflige, sabendo que diariamente alguns de vocês estão se tornando discípulos em nome de Cristo e saindo do caminho do erro; que também estão recebendo dons, cada um como é merecido, iluminado pelo nome deste Cristo. Pois um recebe o espírito de entendimento, outro de aconselhamento, outro de fortalecimento, outro de cura, outro de previsão, outro de ensino e outro do temor de Deus ” (Dialogue with Trypho, ch.39).

“Pois os dons proféticos permanecem conosco, até os dias atuais. E, portanto, você deve entender que [os dons] anteriormente em sua nação foram transferidos para nós. E assim como havia falsos profetas contemporâneos de seus santos profetas, também existem agora muitos falsos mestres entre nós, dos quais nosso Senhor nos avisou para tomar cuidado; de modo que em nenhum aspecto somos deficientes, pois sabemos que Ele conheceu tudo o que aconteceria conosco após a ressurreição dos mortos e a ascensão ao céu ”(Dialogue with Trypho, ch.39).

“Para os inúmeros endemoniados em todo o mundo e em sua cidade, muitos de nossos homens cristãos, exorcizando-os em nome de Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, curaram e curam, tornando-os impotentes e expulsando os demônios que possuíram esses homens, embora não pudessem ser libertos por  outros exorcistas, que usavam encantamentos e drogas ” (Second Apology, vi; Ante-Nicene Fathers 1:190).

Irineu de Lyon (aproximadamente 120-202 d.C), certamente o teólogo mais importante e influente do final do século primeiro escreve:

“Por que, também, aqueles que são, na verdade, Seus discípulos, recebendo de Sua graça, realizam em Seu nome [milagres], de modo a promover o bem-estar de outros homens, de acordo com o dom que cada um recebeu. Alguns, certamente e verdadeiramente expulsam demônios, de modo que aqueles que foram, portanto, limpos de espíritos malignos frequentemente acreditam [em Cristo], e se juntam à Igreja. Outros têm conhecimento prévio das coisas por vir: eles têem visões e expressões proféticas certeiras. Outros ainda, curam os doentes, colocando as mãos sobre eles, e eles são restaurados. Sim, além disso, como eu disse, mortos foram ressuscitados, e permanecem entre nós por ainda muitos anos. E o que devo dizer mais? Não é possível nomear o número de dons que a Igreja, [dispersa] por todo o mundo, recebeu de Deus, em nome de Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e que ela exerce [os dons] dia a dia para o benefício dos Gentios, não praticando engano sobre qualquer que seja, nem tendo qualquer recompensa deles [por conta de tais interposições milagrosas]. Pois, como ela recebeu livremente de Deus, livremente também ministra [aos outros] (Against Heresies, Book 2, ch.32, 4).

“Nem ela [a igreja] realiza nada por meio de invocações angelicais, ou por encantamentos, ou por qualquer outra arte perversa e curiosa; mas, direcionando suas orações para o Senhor, que fez todas as coisas, em um espírito puro, sincero e direto, e invocando o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, ela tem realizado milagres para o bem da humanidade, e não para levá-los ao erro” (Against Heresies, Book 2, ch.32, 5).

“Da mesma forma, também ouvimos muitos irmãos na igreja, que possuem dons proféticos, e que através do Espírito falam todos os tipos de línguas, e trazem à luz para o benefício comum as coisas ocultas dos homens, e declaram os mistérios de Deus, a quem também o apóstolo chama de “espiritual”, sendo espiritual porque participa do Espírito ” (Against Heresies, Book 5, ch.6, 1).

Tertuliano (que em 225 d.C.; cunhou pela primeira vez o termo Trindade) falou e escreveu em inúmeras ocasiões sobre a operação dos dons do Espírito, particularmente aqueles de natureza revelatória, como profecia e palavra de conhecimento.

“Mas de Deus – que prometeu, de fato, ‘derramar a graça do Espírito Santo sobre toda a carne e ordenou que Seus servos e Suas servas tivessem visões e profecias’ – todas essas visões devem ser consideradas emanadas.” (A Treatise on the Soul, xlvii, ANF, 3:225-26).

Ele descreveu o ministério de uma senhora em particular da seguinte forma:

“Visto que reconhecemos o charismata espiritual, ou dons, também nós temos o recebimento do dom profético, embora tenhamos vindo atrás de João (o Batista).” Essa senhora foi “favorecida com diversos dons de revelação” e “ambos veem e ouvem comunicações misteriosas; o coração de alguns homens, para aqueles que precisam, distribui remédios. . .. Depois que as pessoas são dispensadas devida a conclusão dos serviços sagrados, ela tem o hábito regular de nos reportar tudo o que pode ter visto em visão (pois suas visões são examinadas com o maior cuidado escrupuloso, a fim de que sua verdade seja verdadeiramente provada) . . .. Agora você pode se recusar a acreditar nisso, mesmo que haja indubitável evidência em todos os cantos da sua convicção? (A Treatise on the Soul, ix, ANF, 3:188).

Tertuliano contrasta o que testemunhou contra as reivindicações do herege Marcião:

“Deixe Marcião então exibir, os dons de seu deus, alguns profetas,  que não falem pelo sentido humano, mas com o Espírito de Deus, como ambos previram as coisas por vir, e fizeram manifestar os segredos do coração; . . . Agora, todos esses sinais (de dons espirituais) estão próximos a mim, sem qualquer dificuldade, e eles estão de acordo, com as regras, dispensações, e  instruções do Criador”(Against Marcion, v.8, ANF, 3:446-47).

Temos também amplas evidências de visões em operação na vida das mártires Perpétua e sua serva Felicitá (202 d.C.). Encorajo todos a ler o relato comovente da perseverança de Perpetua na fé, apesar da sua morte horrível.

Também é importante que tomemos brevemente nota do movimento conhecido como Montanismo (do qual Tertuliano fez parte em seus últimos anos). O Montanismo surgiu na Frígia perto de 155 d.C., embora Eusébio e Jerônimo datem o movimento em 173 d.C.

O que os montanistas acreditavam e ensinavam que teve um impacto tão significativo na igreja antiga e em sua visão dos dons espirituais? Vários itens são dignos de menção.

Primeiro, o eixo central do Montanismo era o esforço para moldar toda a vida da igreja de acordo com a expectativa do retorno imediato de Cristo. Assim, eles se opuseram a qualquer evolução na vida da igreja que parecia institucional demais ou contribuiria para um padrão rígido de adoração. Desnecessário dizer que aqueles que ocupavam cargos oficiais de autoridade dentro da igreja organizada eram suspeitos para movimento.

Segundo o próprio Montano falou em termos que afirmavam sua identidade com o Paracleto de João 14:16. O enunciado profético em questão é o seguinte:

“Porque Montano falou, dizendo: ‘Eu sou o pai, e o filho e o Paracleto.'” (Found in the writings of Didymus On the Trinity, 3:41).

No entanto, muitos questionaram se Montano estava reivindicando o que seus críticos sugerem. Mais provável que ele, bem como outros no movimento que profetizavam, estavam dizendo que um ou outro ou talvez todos os membros da Trindade estavam falando através deles. Por exemplo, em mais uma de suas declarações proféticas, Disse Montano,

“Você não deve ter ouvido de mim, mas você já deve ter ouvido de Cristo” (Citado em Epiphanius, Panarion, 48:12; col. 873) …

 Em terceiro lugar, Montano e seus seguidores (principalmente, duas mulheres, Prisca e Maximilla) tiveram uma visão do dom profético que foi um afastamento do ensinamento do apóstolo Paulo em 1 Corinthians 14, na medida em que praticavam o que só pode ser chamado de profecia “extática” em qual o orador perdeu a consciência ou caiu em um estado de transe, ou talvez fosse apenas um instrumento passivo através do qual o Espírito poderia falar. Uma das declarações proféticas que sobreviveram (há apenas 16), encontrada em Epiphanius, confirma esta visão:

“Eis que um homem é como uma lira e eu arranco suas notas como uma picareta; o homem dorme, mas estou acordado. Eis que é o Senhor, que está mudando o coração dos homens e dando-lhes novos corações.”

Se é isso que Montano ensinou, ele estaria afirmando que, quando um profeta profetizou, Deus estava no controle total. O homem é pouco mais que um instrumento, como as cordas de uma lira, em que Deus arranca sua canção ou mensagem. O homem está dormente, e, portanto, passivo durante a expressão profética.

Esse conceito de profecia é contrário ao que lemos em 1 Corintios 14:29-31, onde Paulo afirma que “o espírito dos profetas está sujeito ao profeta”.

Os montanistas não podem ser acusados de ter originado esta visão, pois é encontrado entre os apologistas gregos deste período. Justino Mártir e Teófilo ambos afirmaram que o Espírito falou através dos profetas do AT de tal forma a possuí-los. Athenagoras diz que Moisés, Isaías, Jeremias e outros profetas AT eram

“levantados em êxtase acima das ações naturais de suas mentes pelos impulsos do Espírito Divino, e [que eles] proferiram as coisas com as quais foram inspirados, o Espírito fazendo uso deles como um flautista respira em uma flauta” (A Plea for the Christians, 9).

O ponto é que, pelo menos nessa questão, os montanistas não estavam defendendo uma visão de profecia que era significativamente diferente do que os outros grandes nomes da igreja daqueles dias estavam dizendo.

Em quarto lugar, o dom das línguas também foi proeminente entre os montanistas, assim como a experiência de receber visões de revelações. Eusébio preservou uma refutação do Montanismo escrita por Apolinário em que este último acusou estes “profetas” de falar em maneiras incomuns. Por exemplo, “Ele [Montano] começou a ficar extasiado e falar e falar estranhamente” (citado em Kydd, Charismatic Gifts in the Early Church, 35).   Mais uma vez, Maximilla e Prisca dizem ter falado “loucamente e de forma inadequada e estranha, como Montano” (ibid.). Finalmente, ele se refere aos montanistas como “profetas tagarelas”. Não podemos ter certeza, mas a palavra traduzida por “tagarelando”, não encontrada em nenhum outro lugar em toda a literatura grega, pode se referir ao falar longamente o que soa como línguas, ou seja, falando em línguas.

Em quinto lugar, Montano afirmou que esta manifestação do Espírito, da qual ele e seus seguidores eram os principais receptores, era um sinal do fim os tempos. A Jerusalém celestial, disse Montano, logo descerá perto de Pepuza, na Frígia. Eles também enfatizaram a monogamia e insistiram na castidade entre marido e mulher. Eles foram bastante ascéticos em sua abordagem da vida cristã (que foi o que atraiu Tertuliano). Eles enfatizaram fortemente a autodisciplina e o arrependimento.

Finalmente, embora o Montanismo foi muitas vezes tratado como heresia, numerosos autores na igreja primitiva insistiram na ortodoxia geral do movimento. Hipólito falou de sua afirmação das doutrinas de Cristo e da criação e o “caçador de heresias” Epifânio (315-403 d.C.) admitiu que os montanistas concordavam com a igreja em geral sobre as questões da ortodoxia, especialmente a doutrina da Trindade.

Epifânio escreveu que os montanistas ainda foram encontrados na Capadócia, Galacia, Frígia, Cilicia e Constantinopla no final do século IV. Esta avaliação foi confirmada por Eusébio, que dedicou quatro capítulos de sua monumental História Eclesiástica aos montanistas. Didimo o Cego (313-98) escreveu sobre eles, e o grande pai da igreja Jeronimo (342-420) encontrou pessoalmente comunidades montanistas em Ancara quando ele estava viajando pela Galacia em 373. O ponto é que o Montanismo estava vivo e influente até perto do fim do século IV.

Ironicamente, e tragicamente, uma das principais razões pelas quais a igreja começou a suspeitar dos dons do Espírito e, eventualmente, excluiu-os da vida da igreja foi por causa de sua associação com Montanismo. A visão montanista da profecia, na qual o profeta entra em um estado de êxtase passivo para que Deus falasse diretamente, era percebida como uma ameaça à crença da igreja de que o Cânon Bíblico já havia sido fechado. Outros aspectos desagradáveis do estilo de vida montanista, como observado acima, provocaram oposição ao movimento e, portanto, ao Carismas também.

Em suma, foi em grande parte pela visão montanista do dom profético, na qual foi adotada uma perspectiva virtual do “Assim diz o Senhor”, que contribuiu para a crescente ausência do Carismas na vida de igreja.

 

Sam Storms é pastor reformado e carismático, membro do conselho The Gospel Coalition e um dos diretores do ministério Desiring God

 

 

Texto Original: https://www.samstorms.org/enjoying-god-blog/post/spiritual-gifts-in-church-history–2-
Tradução Livre: Omar Junior

Dons Espirituais na História da Igreja – Sam Storms – Parte 1

A pergunta que desejo responder neste e em vários artigos subsequentes é a seguinte: “Se os dons espirituais de 1 Coríntios 12: 7-10 são válidos para os cristãos após a morte dos apóstolos, por que eles estavam ausentes da história da igreja até seu suposto reaparecimento no século XX? ”

Minha resposta:

1) Eles definitivamente não estavam ausentes. Às vezes eram menos evidentes, o mesmo poderia ser dito sobre a presença de sinais, maravilhas e milagres na história bíblica. De qualquer forma, argumentar que todos esses dons eram totalmente inexistentes é ignorar um conjunto significativo de evidências. Depois de estudar os documentos para reivindicar a presença desses dons, a conclusão de D.A. Carson é que “há evidências suficientes de que alguma forma de dons ‘carismáticos’ continuou esporadicamente ao longo dos séculos da história da igreja e é inútil insistir em argumentos doutrinários de que todos os relatos são espúrios ou fruto de atividade demoníaca ou aberração psicológica”(Showing the Spirit, p. 166).

2) Pode surpreender alguns, descobrir que nosso conhecimento é de apenas uma pequena fração do que aconteceu na história da igreja. É terrivelmente presunçoso concluir que os dons do Espírito estavam ausentes da vida das pessoas sobre as quais praticamente nada sabemos. Em outras palavras, a ausência de evidência não é necessariamente a evidência de ausência!

Simplesmente não sabemos o que estava acontecendo nas milhares e milhares de igrejas e nas reuniões domésticas dos cristãos nos séculos passados. Não posso dizer com confiança que os fiéis oravam regularmente pelos enfermos e os viam curados, assim como você também não pode dizer que não. Você não pode dizer que eles nunca profetizaram para o conforto, exortação e consolo (1 Cor. 14: 3) da igreja, assim como não posso dizer que eles o fizeram. Nenhum de nós pode dizer com confiança se incontáveis ​​milhares de cristãos em toda a terra habitada oraram em línguas em suas devoções particulares. Esse não é o tipo de coisa para a qual poderíamos esperar documentação extensa. Devemos lembrar que a impressão com tipo móvel não existia até o trabalho de Johann Gutenberg (1390-1468). A ausência de evidência documentada de dons espirituais em um momento em que, a evidência documentada para a maior parte da vida da igreja era, na melhor das hipóteses, escassa, dificilmente é uma boa base para concluir que tais dons não existiam.

3) Se os dons eram esporádicos, pode haver outra explicação além da teoria de que eles foram restritos ao primeiro século. Devemos lembrar que, antes da Reforma Protestante no século XVI, o cristão comum não tinha acesso à Bíblia em sua própria língua. A ignorância bíblica era desenfreada. Esse dificilmente é o tipo de ambiente em que as pessoas estariam cientes dos dons espirituais (nome, natureza, função e responsabilidade do crente em busca-los) e, portanto, dificilmente o tipo de ambiente em que esperaríamos que procurassem e orassem por tais fenômenos ou reconhecê-los se eles se manifestassem. Se os dons eram escassos, e isso novamente é altamente discutível, isso se deve tanto à ignorância e à letargia espiritual que gera quanto a qualquer princípio teológico que limite os dons à vida dos apóstolos.

Especialmente importante nesse sentido é a concentração de autoridade e ministério espirituais no ofício de bispo e padre na emergente Igreja de Roma. No início do século IV d.C. (muito antes, segundo alguns), já havia um movimento para limitar a oportunidade de falar, servir e ministrar na vida da igreja ao clero ordenado. O povo leigo foi silenciado e marginalizado e deixado quase inteiramente dependente da contribuição do padre local ou bispo monárquico.

Embora Cipriano (bispo de Cartago, 248-258 dC), falasse e escrevesse muitas vezes sobre o dom de profecia e o recebimento de visões do Espírito (Epístolas de Cipriano, vii.3-6, ANF, 5: 286-87; vii.7, ANF, 5: 287; lxviii.9-10, ANF, 5: 375; iv.4, ANF, 5: 290), ele também foi responsável pelo desaparecimento gradual de tais charismas da vida da igreja. Ele, entre outros, insistiu que somente o bispo e o padre da igreja deveriam ter permissão para exercer esses dons revelacionais. Como diz James Ash: “O carisma da profecia foi absorvido pelo episcopado monárquico, e usado em sua defesa, deixado a morte despercebida quando a verdadeira estabilidade do episcopado a tornou uma ferramenta supérflua” (“The Decline of Ecstatic Prophecy in the Early Church,” Theological Studies 36 [June 1976]:252).

Se admitimos, por uma questão de argumentação, que certos dons espirituais eram menos evidentes que outros em certos períodos da igreja, sua ausência pode muito bem ser devida a descrença, apostasia e outros pecados que servem apenas para extinguir e entristecer o Espírito Santo. Se Israel experimentou a perda de poder por causa da repetida rebelião, se o próprio Jesus “não pôde fazer milagres ali, a não ser que impôs as mãos sobre algumas pessoas doentes e as curou” (Marcos 6: 5), tudo por causa de sua “incredulidade” (Marcos 6: 6), dificilmente devemos nos surpreender com a pouca frequência dos milagres nos períodos da história da igreja marcados pela ignorância teológica e pela imoralidade pessoal e clerical.

4) Também devemos lembrar que Deus misericordiosamente nos abençoa com o que não merecemos e com o que recusamos ou somos incapazes de reconhecer. Estou convencido de que numerosas igrejas hoje em dia que defendem o cessacionismo experimentam esses dons, mas os descartam como algo que não é uma manifestação milagrosa do Espírito Santo.

Por exemplo, alguém com o dom de espírito de discernimento pode ser descrito como “possuindo sensibilidade e discernimento notáveis”. Diz-se que alguém com o dom da palavra do conhecimento tem “um profundo entendimento das verdades espirituais”. Dizem que alguém que profetiza tem “Falado com oportuno encorajamento às necessidades da congregação”. Alguém que põe as mãos nos doentes e ora com sucesso pela cura é lembrado de que Deus ainda responde à oração, mas que “dons de cura” não existem mais. Essas igrejas nem poderiam ser chamadas mortas rotulando esses fenômenos pelos nomes dados em 1 Coríntios 12: 7-10, porque estão comprometidas com a teoria de que tais fenômenos nem se quer existem.

Se isso ocorre hoje (e ocorre, como ocorreu em uma igreja em que ministrei por vários anos), há todas as razões para pensar que isso ocorreu repetidamente ao longo da história da igreja, subsequente ao primeiro século.

Considere este exemplo hipotético. Suponhamos que um homem tenha sido designado para escrever uma história descritiva da vida da igreja no que é agora o sul da França, digamos, em 845 d.C. Como ele pode rotular o que viu e ouviu? Se ele ignorasse os dons espirituais, não fosse ensinado ou talvez fosse um cessacionista bem-educado, seu registro não faria referência a profecias, curas, milagres, palavras de conhecimento etc. Esses fenômenos poderiam muito bem existir, talvez até florescer, mas ser identificado e explicado em outros termos por nosso historiador hipotético.

Séculos depois, descobrimos seu manuscrito. Seria justo concluir a partir de suas observações que certos dons espirituais haviam cessado após a era apostólica? Claro que não! Meu argumento é simplesmente que, tanto no passado distante quanto no presente, o Espírito Santo pode capacitar o povo de Deus com dons para o ministério que eles não reconhecem ou, por qualquer motivo, explicam em termos que não sejam os de 1 Coríntios 12: 7-7. 10) A ausência de referência explícita a certos charismas é, portanto, uma base fraca sobre a qual defender sua retirada permanente da vida da igreja.

5) A questão que estamos considerando é a seguinte: Se o Espírito Santo quisesse que a igreja experimentasse o milagroso charismas, eles não teriam sido mais visíveis e predominantes na história da igreja (e estou apenas admitindo, por uma questão de argumentação, que eles não eram)? Vamos pegar o princípio subjacente a esse argumento e aplicá-lo a várias outras questões.

Todos nós acreditamos que o Espírito Santo é o professor da igreja. Todos nós acreditamos que o Novo Testamento descreve seu ministério de iluminar nossos corações e iluminar nossas mentes para entender as verdades das Escrituras (ver 1 João 2: 20,27; 2 Tim. 2: 7; etc.).

Contudo, na primeira geração após a morte dos apóstolos, a doutrina da justificação pela fé foi comprometida. A salvação pela fé e obras logo se tornou doutrina padrão e não foi contestada com sucesso (com algumas exceções notáveis) até a posição corajosa de Martinho Lutero no século XVI. Minha pergunta, então, é a seguinte: Se Deus pretendia que o Espírito Santo continuasse a ensinar e iluminar os cristãos a respeito de verdades bíblicas vitais após a morte dos apóstolos, por que a igreja ficou na ignorância dessa verdade mais fundamental por mais de 1.300 anos? Por que os cristãos sofreram com a ausência dessas bênçãos experienciais que essa verdade vital poderia ter trazido à vida da igreja

Sem dúvida, a resposta será que nada disso prova que o Espírito Santo cessou seu ministério de ensino e iluminação. Nada disso prova que Deus deixou de querer que seu povo entendesse princípios doutrinais vitais. Precisamente! E a relativa infrequência ou ausência de certos dons espirituais durante o mesmo período da história da igreja não prova que Deus se opôs ao seu uso ou negou sua validade pelo restante das eras.

Tanto a ignorância teológica de certas verdades bíblicas quanto a perda de bênçãos experienciais proporcionadas por dons espirituais podem ser, e devem ser atribuídas a outros fatores além da sugestão de que Deus pretendia que tal conhecimento e poder estivesse apenas para os crentes da igreja primitiva.

6) Finalmente, e mais importante de tudo, é o fato de que o que ocorreu ou não na história da igreja é irrelevante para o que devemos buscar, orar e esperar na vida de nossas igrejas hoje. O critério final para decidir se Deus deseja conceder certos dons espirituais ao seu povo hoje é a Palavra de Deus. Fico desapontado ao ouvir as pessoas citarem a alegada ausência de uma experiência particular na vida de um santo admirado do passado da igreja como motivo para duvidar de sua atual validade. Por mais que eu respeite os gigantes da Reforma e de outros períodos da história da igreja, pretendo imitar os gigantes do NT que escreveram sob a inspiração do Espírito Santo. Admiro João Calvino, mas obedeço ao apóstolo Paulo.

Em suma, nem o fracasso nem o sucesso dos cristãos nos dias passados ​​são o padrão final pelo qual determinamos o que Deus deseja para nós hoje. Podemos aprender com seus erros e com suas realizações. Mas a única questão de relevância última para nós e para esta questão é: “O que diz a Escritura?”

 

Sam Storms é pastor reformado e carismático, membro do conselho The Gospel Coalition e um dos diretores do ministério Desiring God

 

 

Texto Original:https://www.samstorms.org/enjoying-god-blog/post/spiritual-gifts-in-church-history–1-

Tradução Livre: Omar Junior

 

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